07 novembro 2019

NOVEMBRO NEGRO, COMO NÃO ERRAR?

Recentemente, postei um desabafo no meu instagram (@aboutbrendalima) sobre como as escolas e empresas se desesperam em novembro para falar sobre questões raciais (OBRIGADA, Lei 10.639/03). É engraçado (para não dizer triste) que esse seja o único mês que possibilita debater questões raciais sem sermos apontados como exagerados ou escandalosos.

O problema está no fato de que grande parte dessas instituições não sabem por onde começar para abordar esse assunto. Em razão do Projeto Afro Ação (@afroacao), várias vezes tive o contato com pessoas que, honestamente, não sabiam o que estavam fazendo e transformavam seus eventos em novos meios de perpetuar o racismo, principalmente de maneira velada.

Me preocupei diante dessas situações, pois muitos realmente não conseguem ver além de si, por isso eu decidi fazer essa publicação com dicas de como diminuir as chances de errar na abordagem sobre questões raciais e contribuir de alguma forma para o enfrentamento do racismo. Sigam atentos:

1. Tenha pessoas negras envolvidas na organização do evento.

Parece óbvio, mas para muitos passa despercebido. Simplesmente, estive em situações em que havia ZERO pessoas negras na organização, ou seja, um grupo de pessoas brancas, com nenhuma vivência enquanto negras estava discutindo sobre o que era melhor ou pior para abordar sobre esse assunto. Gente, não tem condições. Se você nunca viveu racismo na pele, não tem como você acertar totalmente sobre quais formas serão as melhores ou as piores de abordar esse assunto. Provavelmente, você sequer sabe o peso e a importância de se trabalhar isso.

Mas como sabemos que o sistema nos corrompe e faz a gente se odiar (e considerando a existência de Morgan Freeman), podemos notar que nem todas as pessoas negras são sensatas ou se importam com questões raciais, diante disso é importante trabalharmos os próximos quatro tópicos também. Vamo lá!

2. Não somos todos iguais!

Esse também acontece muito! Por algum motivo as pessoas acham que falar que somos todos iguais vai diminuir o racismo, mas deixa eu contar um segredinho, meus amores? NÃO VAI! A gente precisa saber da existência do racismo, a gente precisa entender que somos realmente diferentes. Viver sendo branco ou sendo preto na sociedade faz TODA a diferença e ignorar isso só faz com que a falsa ideia de democracia racial se reforce e fique mais difícil sermos antirracistas. Afinal, como seremos contra algo que sequer existe?

É possível evidenciar de milhões de formas como a sociedade é racista, seja através de como falar sobre traficantes brancos ou pretos na chamada do jornal, seja observando como ocorre a abordagem dessas pessoas na rua, dentre outras milhares. Não há mais tempo para se discutir se existe racismo ou não. O RACISMO EXISTE! ELE É REAL E ELE DÓI. Se você não quer falar sobre ele de maneira sensata, honesta e responsável, por favor pelo menos não faça o desserviço de questionar sua existência.

3. Pessoas negras são pessoas(não objetos) negras(no plural)!

Não há necessidade de sexualizar, expor ou objetificar pessoas negras na tentativa de enaltecê-las. Observei muito isso de ficarem elogiando repetidamente a estética de pessoas negras associando-as à sexualidade, força e todos os esteriótipos que conhecemos. Mais ainda, há uma tendência de tocar nesses corpos, exibi-los como se fossem objetos. A objetificação e a desumanização das pessoas negras é também um fruto do racismo. Muito do que aconteceu só foi possível porque as pessoas negras não eram vistas como seres possuidores de alma. Portanto, antes de fazer qualquer coisa com uma pessoa negra de sua empresa ou escola, pense se aquele comportamento é normal, se condiz com algo que você faria com qualquer outra pessoa branca. Reflita se a exposição daquela pessoa é necessária, se realmente fará bem para sua autoestima.

Outro erro que acontece muito é o de tentar elogiar pessoas negras com o clássico: você parece fulana, você parece ciclana. Nós somos pessoas únicas, todos nós. É uma chatice isso de todo homem preto ser Lázaro Ramos e toda mulher preta ser Taís Araújo. Existem milhões de pessoas negras no mundo. A gente não precisa se parecer com alguém famoso para ser bonito. Nossos traços são distintos, nossa pele é única, nosso cabelo e rosto carregam características exclusivas. A comparação estética não nos embeleza, mas reforça que estamos numa caixinha pequena, diminui a nossa diversidade, nossa pluralidade. Esse tipo de elogio ou proposta não nos engradece.

4. Escravidão machuca!

"Ah, vamos fazer um teatro com pessoas negras apanhando amarradas em troncos!". A gente não precisa lembrar da nossa história, a gente lembra todo dia quando recebe notícia de irmãos baleados, mortos, presos. A gente lembra toda vez que nos questionam de nossa capacidade, de nosso poder, de nossa honestidade. Não somos nós que precisamos nos lembrar disso,a gente carrega diariamente o peso disso nas costas, em diversas situações.

No fim, nos tornamos pessoas que foram escravizadas e seguem colhendo os 'frutos' dessa escravidão. Ficar lembrando e relembrando sobre algo que todos sabemos não impacta no enfrentamento ao racismo. Ao invés de trabalharem somente sobre isso, falem sobre as situações atuais e como elas ainda estão tão atreladas à escravidão. Não podemos voltar ao passado e impedir o que aconteceu, mas podemos observar nossas ações de agora e mudar, diminuir a reprodução do racismo que está tão enraizada dentro da gente.

5. NÓS SOMOS INCRÍVEIS!

Quantos escritores negros você conhece e lê? Quantas cientistas, artistas, físicas, engenheiras, músicos, dançarinos, cantores, militantes e políticos negros você conhece? Nós precisamos falar sobre isso! Nós queremos ouvir sobre isso! É assim que se combate o racismo, é trazendo pra nossa rotina a percepção de que pessoas negras não são eternos subordinados. A gente quer representatividade. A gente quer ver que podemos ir até onde quisermos, queremos que nosso intelectual tenha valor, queremos oportunidades. Nessa data, contrate pessoas pretas, empregue pessoas negras, valorize o trabalho de pessoas que estão fora do seu ambiente e reflita o motivo de elas estarem tão distantes de sua realidade. Ouça pessoas negras e tente ser empático. Faça mudanças acontecerem.

Se o seu evento, palestra, reunião, festival ou qualquer outra manifestação em comemoração ao dia da consciência negra não estiver levando em consideração os tópicos citados acima, eu sinto dizer que provavelmente estará mais atrapalhando do que ajudando. Não é fácil, eu sei, mas se queremos um mundo diferente para nossas próximas gerações precisamos combater algumas coisas com unhas e dentes, e o RACISMO é uma delas.  


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